terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Haikai

"outro outono
no chão entre as folhas
sonhos do verão"

Ricardo Silvestrin


O haikai se faz com três linhas, ou versos, e não mais de 17 sílabas.
Seu tema é a natureza, e não nossos sentimentos e pensamentos.
Se faz com simplicidade, leveza, desapego, sutileza, objetividade, integração com o todo.
Sua melhor definição, na opinião de muitos, é uma fotografia em palavras.
Grava o instante. O fotógrafo não aparece na foto, mas sua sensibilidade sim.

O mesmo no haikai.

É como se as coisas falassem por si mesmas. Sem adjetivos, sem a impressão do poeta, exatamente como são.
Só o real, sem comparar a nada e, talvez por isso mesmo, tão incomparável.
Porque, descrevendo a coisa apenas como ela é, desperta a sensação da própria coisa.
A sensação, por exemplo, da estação em que ela acontece, nos fazendo lembrar de que tudo está sempre mudando, tem o seu próprio tempo, que é cíclico.

É essencial, isto é, capta a essência das coisas, e a essa característica se dá o nome de haimi, que significa "sabor de haikai".
Não é difícil de entender, quando se volta à comparação com fotografia.
Qualquer um é capaz de perceber se uma foto é boa ou não, além dos aspectos técnicos. Ela é boa se nos toca, se capta um instante especial, se provoca uma sensação.

O haikai é uma forma poética que nasceu no Japão e chegou ao Brasil há exatos 100 anos, em 1908, no navio kassato Maru, com a primeira leva de imigrantes japoneses.
Diferente, em muitos sentidos, da poesia que se faz no Ocidente, o haikai nos ensina coisas fundamentais para nosso momento atual.

Em primeiro lugar, a síntese.

Com apenas três versos, nem um a mais, nem um a menos, e com 17 sílabas, no máximo, exercitamos o dom de dizer o suficiente como um mínimo de palavras.
Como vivemos cada vez mais, um tempo sem tempo, em que não é possível absorver toda informação que nos chega - nem transmiti-la- ser sintético e aprender a concentrar conteúdos e fundamental.

Mas também aprendemos a olhar para fora de nós mesmos, a observar a natureza, as mudanças de estação, e assim nos sentimos mais integrados com o todo e ficamos menos absorvidos com nossos problemas pessoais, que passam a ser menos importantes.

Sair do próprio umbigo, como Buda avisou, é o caminho para a cessação do sofrimento.

O nome mais conhecido na história do haikai no Japão e, por tanto, no mundo, é Matsuo Bashô.
Ele era um guerreiro, ou samurai, e como tal, aprendeu muitas artes zen, que são caminhos para uma atitude de vida.
Além das artes marciais, judô (o caminho da suavidade), karatê do (caminho das mãos vazias), kyu dô, (caminho do arco e flecha), kendô, o caminho de manejar a espada, os samurais do Japão antigo aprendiam ikebana, ou ka dô, que é a arte do arranjo floral, o cha-dô, que é a cerimônia do chá, e outras mais, como o haikai dô, ou caminho do haikai.

Quando seu senhor morreu, de morte natural, Bashô escolheu, entre tantas artes, ensinar haikai e chegou a ter 3.000 discípulos. Mas, como o haikai é feito sobre a natureza, Bashô decidiu sair de sua cidade e viajar para ver as outras paisagens de seu país.
Seus alunos inconformados lhe pediram para ficar porque achavam que ainda tinham muito a aprender, e Bashô lhe disse:

-Não tenho mais nada para ensinar a vocês, qualquer dúvida que vocês tenham, perguntem a uma criança de 8 anos.

Porque,não importa a idade que se tenha, é a criança que existe em cada um de nós, que sabe ler, entender e escrever haikai.



Para sortear um haikai e se inspirar é só clicar aqui.


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